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Pare de acreditar nos 5 mitos que sabotam sua fertilidade

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O que você precisa saber antes de tentar engravidar

Muitas pessoas chegam à jornada reprodutiva carregando crenças populares que parecem inofensivas, mas que, na prática, atrasam decisões, aumentam a ansiedade e até diminuem as chances de sucesso. Em vez de seguir conselhos de internet ou de conhecidos, vale separar o que é evidência do que é mito. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 1 em cada 6 pessoas experimenta infertilidade ao longo da vida — um número que mostra como informação de qualidade é fundamental. Ao entender os mitos fertilidade mais comuns e o que fazer no lugar deles, você ganha clareza, economiza tempo e toma decisões mais assertivas.

Como os mitos fertilidade atrapalham decisões

Quando você baseia seu plano reprodutivo em meias verdades, tende a postergar exames essenciais, ignorar sinais do corpo e, muitas vezes, culpar a si mesmo ou o parceiro. Desmistificar cedo encurta o caminho entre a tentativa e o positivo, ajuda a alinhar expectativas e direciona o casal para estratégias eficazes.

Mito 1: Menstruação regular é sinônimo de ovulação e fertilidade

A menstruação vir certinha não garante que haja ovulação em todos os ciclos, nem que o ambiente reprodutivo esteja favorável. Ciclos anovulatórios podem acontecer mesmo em mulheres com períodos aparentemente regulares. Além disso, condições como ovário policístico, endometriose ou alterações hormonais do climatério podem coexistir com sangramentos regulares e, ainda assim, comprometer a fertilidade.

Por que esse mito persiste

– Regularidade dá a sensação de “funcionamento normal”, mas o ciclo menstrual é mais do que sangrar no prazo.
– O corpo pode produzir sangramentos de privação hormonal sem ovulação efetiva.
– Doenças silenciosas, como endometriose, podem dificultar a fertilização e a implantação do embrião mesmo com ciclos previsíveis.

Sinais de alerta de que algo pode não estar redondo:
– Dores pélvicas crônicas, cólicas intensas, dor na relação ou sangramento intermenstrual.
– Fluxo muito escasso ou muito intenso, alterações súbitas de ciclo após os 35 anos.
– Dificuldade para identificar sinais de ovulação (como muco cervical fértil) ao longo de vários meses.

Como avaliar se você está ovulando

– Testes de LH (urina): quando positivos, indicam pico hormonal que antecede a ovulação em 24–36 horas. Úteis para programar relações.
Progesterona na fase lútea: dosagem cerca de 7 dias após a ovulação estimada (ou por volta do dia 21 em ciclos de 28 dias) sugere se a ovulação ocorreu.
Ultrassonografia seriada: acompanha crescimento folicular e ruptura, padrão ouro para confirmar ovulação em tempo real.
– Observação de sintomas: muco cervical elástico e translúcido, leve dor em um dos lados do baixo-ventre, aumento de temperatura basal (método menos confiável isoladamente).

Quando procurar avaliação:
– Se você tem menos de 35 anos e tenta há 12 meses, ou 35+ e tenta há 6 meses.
– Se há histórico de endometriose, ovário policístico, ciclos muito irregulares, cirurgias pélvicas ou aborto de repetição — procure mais cedo.

Importante: colocar os mitos fertilidade de lado e checar objetivamente a ovulação evita meses de tentativa às cegas.

Mito 2: Anticoncepcional causa infertilidade

Parar o anticoncepcional não “queima” sua fertilidade. Ao contrário do que muitos acreditam, o uso de métodos hormonais não está associado a infertilidade futura. O que pode acontecer é a suspensão revelar um problema pré-existente que estava mascarado pela regularidade artificial do ciclo.

O que a ciência mostra

– Pílula combinada, adesivo, anel e DIU hormonal: a ovulação costuma retornar em semanas a poucos meses após a suspensão.
– Injetável trimestral: pode haver atraso maior para a volta dos ciclos (às vezes até 9–12 meses), mas isso não significa dano definitivo à fertilidade.
– Não há evidência de que “muito hormônio” cause infertilidade. O mecanismo é transitório: enquanto usa, você não ovula; ao parar, o eixo reprodutivo retoma gradualmente.

Ponto-chave: se, após interromper, a ovulação não retorna ou a gravidez não acontece no tempo esperado, o mais provável é existir uma causa anterior (ex.: disfunção ovulatória, endometriose, fator tubário ou masculino) — não o anticoncepcional em si.

Como parar o método e planejar a concepção

– Faça uma consulta pré-concepcional: atualize vacinas, revise histórico médico e medicamentos, avalie IMC, pressão arterial e hábitos.
– Inicie ácido fólico (pelo menos 400 mcg/dia) 1–3 meses antes de tentar, para reduzir risco de defeitos do tubo neural.
– Monitore ciclos por 2–3 meses: observe janela fértil com testes de LH e muco cervical.
– Sinais de que é hora de investigar: menos de 35 anos tentando há 12 meses; 35+ tentando há 6 meses; qualquer idade com fator de risco.
– Abandone de vez os mitos fertilidade sobre pílula e foque no que está sob seu controle: tempo de coito programado, saúde metabólica, exames básicos e avaliação do parceiro.

Mito 3: Se o homem já teve filho, não pode ter problema de fertilidade

A produção de espermatozoides é dinâmica e sensível a saúde, idade e estilo de vida. O fato de um homem já ter sido pai não garante que sua fertilidade permaneça intacta ao longo do tempo. Doenças, exposições ambientais, cirurgias e até certos suplementos podem alterar a quantidade e qualidade do sêmen.

Fatores masculinos mudam com o tempo

– Varicocele (veias dilatadas no escroto) pode surgir ou piorar, prejudicando produção e qualidade espermática.
– Infecções, febres altas, COVID-19 e doenças crônicas (diabetes, hipertensão) impactam temporariamente ou de forma persistente o sêmen.
– Estilo de vida: tabagismo, álcool excessivo, anabolizantes/testosterona exógena, sedentarismo e excesso de calor (banhos muito quentes, notebook no colo) diminuem concentração e motilidade.
– Idade paterna avançada: pode aumentar fragmentação de DNA espermático e o tempo até a concepção.

Dado-chave: de 35 a 40% dos casos de infertilidade do casal têm relação exclusiva com fatores masculinos. Ignorar isso por confiar em um passado reprodutivo é cair em um dos mitos fertilidade mais danosos.

Exames e hábitos que importam

– Espermograma: avalia volume, concentração, motilidade e morfologia. Repita se necessário (o sêmen varia).
– Perfil hormonal: FSH, LH, testosterona total e prolactina se houver alterações importantes no espermograma ou sinais clínicos.
– Ultrassonografia escrotal: útil para investigar varicocele.
– Estilo de vida pró-fertilidade:
– Pare de fumar e limite álcool.
– Mantenha IMC saudável, durma 7–8 horas e movimente-se (30–45 min/dia).
– Evite calor escrotal excessivo e anabolizantes/testosterona sem indicação médica.
– Priorize dieta rica em frutas, vegetais, peixes gordurosos, nozes e azeite.

Quando procurar urologista/andrologista:
– Espermograma alterado; dor escrotal; suspeita de varicocele; perda de libido; histórico de criptorquidia, quimio/radioterapia ou cirurgia urológica.

Mito 4: Infertilidade é um problema apenas da mulher

A narrativa social frequentemente responsabiliza a mulher, o que atrasa o diagnóstico e traz sofrimento desnecessário. A realidade é compartilhada: as causas podem ser femininas, masculinas, mistas ou, em parte dos casos, sem explicação aparente. Tratar a questão como “do casal” é estratégico e humano.

Divisão real das causas

– Fatores femininos: 35–40% (distúrbios ovulatórios, endometriose, fator tubário por infecções ou cirurgias, alterações uterinas).
– Fatores masculinos: 35–40% (baixa concentração, motilidade, morfologia alterada, varicocele, disfunções hormonais).
– Fatores combinados ou inexplicados: 20–30%.

Principais causas femininas, em linhas gerais:
– Disfunção ovulatória: ovário policístico, hiperprolactinemia, disfunção tireoidiana.
– Fator tubário: sequelas de infecções pélvicas, endometriose, cirurgias prévias.
– Fator uterino: pólipos, miomas submucosos, sinéquias uterinas.
– Idade materna: queda de quantidade e qualidade dos óvulos.

Principais causas masculinas:
– Alterações no espermograma (concentração, motilidade, morfologia).
– Varicocele clínica.
– Infecções, distúrbios hormonais, fatores ambientais.

Caminho do casal: investigação em paralelo

– Avaliação inicial (ambos):
– História clínica completa, IMC, pressão, hábitos, exposição ocupacional.
– Sorologias e atualização vacinal.
– Mulher:
– Confirmação de ovulação (progesterona, ultrassonografia).
– Reserva ovariana (AMH e contagem de folículos antrais).
– Avaliação anatômica uterina e tubária (ultrassonografia transvaginal, histerossalpingografia ou sono-histerografia).
– Homem:
– Espermograma com padrão de referência atual.
– Urologista caso haja alterações.
– Estratégias após diagnóstico:
– Coito programado e indução ovulatória em disfunções leves.
– Inseminação intrauterina para alguns casos de fator masculino leve ou cervical.
– Fertilização in vitro (FIV) para fator tubário, endometriose moderada/grave, contagens muito baixas, idade avançada ou falhas prévias.

Atacar os mitos fertilidade e iniciar a investigação em paralelo poupa tempo e direciona o tratamento mais eficaz.

Mito 5: Idade não importa se você é saudável

Estar saudável ajuda, mas não anula o efeito do tempo sobre os óvulos. A reserva ovariana e, sobretudo, a qualidade dos óvulos diminuem progressivamente com a idade, elevando a taxa de embriões com alterações cromossômicas e reduzindo a chance de gravidez por ciclo. A idade masculina também influencia, embora em menor grau.

A biologia dos óvulos e da reserva ovariana

– As mulheres nascem com todos os óvulos que terão; não há reposição ao longo da vida.
– A partir dos 35 anos, a queda de qualidade acelera; após os 40, a chance de gestação natural por ciclo pode ficar em torno de 5% ou menos, em média.
– A reserva ovariana (AMH, contagem de folículos antrais) indica “quantidade”, não garante qualidade; é uma bússola para escolher estratégia, não um oráculo de “vai ou não vai”.
– Idade e qualidade do óvulo impactam: tempo até engravidar, risco de aborto espontâneo e eficácia de tratamentos.

Para calibrar expectativas, considere estimativas médias de chance de gravidez por ciclo com relações no período fértil:
– Até 35 anos: cerca de 20–25%.
– 35–37 anos: ~15%.
– 38–39 anos: ~10%.
– 40–42 anos: ~5% ou menos.

Próximos passos a partir dos 35+

– Não espere demais: 35+ tentando há 6 meses já merece avaliação; 40+ deve procurar mais cedo.
– Planeje com dados: reserve um mês para exames básicos (ovulação, reserva ovariana, trompas, espermograma).
– Opções de tratamento, conforme diagnóstico:
– Coito programado/indução ovulatória, quando ovulação é o principal entrave e trompas estão pérvias.
– Inseminação intrauterina em casos selecionados de fator masculino leve e ciclos ovulatórios induzidos.
– FIV quando há fator tubário, endometriose moderada/grave, idade mais avançada ou espermograma muito alterado.
– Preservação da fertilidade: congelamento de óvulos é mais eficaz quando feito antes dos 35 anos, mas pode ser considerado até os 38–40 após avaliação individual.
– Estilo de vida que ajuda, sem cair em promessas milagrosas:
– Peso saudável, atividade física regular, alimentação anti-inflamatória (frutas, legumes, grãos integrais, proteínas magras, gorduras boas).
– Sono consistente e manejo do estresse (meditação, terapia, rotina).
– Evite tabaco, reduza álcool e não use anabolizantes.
– “Só relaxar” não cura infertilidade. Reduzir estresse é ótimo para adesão ao tratamento e qualidade de vida, mas não substitui avaliação nem corrige trompas obstruídas, anovulação persistente ou baixa contagem espermática.

Ao encarar com seriedade os mitos fertilidade e substituí-los por um plano prático — exames no tempo certo, hábitos que importam e, quando indicado, tratamentos baseados em evidência — você transforma ansiedade em ação e aumenta suas chances reais.

Como transformar informação em resultados: um plano prático de 30 dias

Para fechar, um roteiro rápido que coloca você no controle. Adapte conforme idade, histórico e orientação médica.

Semanas 1 e 2: mapeie o cenário

– Consulte seu ginecologista e incentive o parceiro a consultar o urologista (ou o clínico) em paralelo.
– Atualize vacinas e inicie ácido fólico.
– Faça um check-up de hábitos: sono, atividade, álcool, tabagismo, exposição ao calor (ele).
– Defina metas realistas de 90 dias (peso, rotina de exercícios, organização de exames).
– Inicie monitoramento do ciclo com testes de LH e observação do muco cervical.

Semanas 3 e 4: exames essenciais e estratégia

– Mulher:
– Progesterona na fase lútea, ultrassonografia transvaginal, AMH e contagem de folículos antrais.
– Avaliação uterina/tubária (conforme histórico e tempo de tentativa).
– Homem:
– Espermograma (e repita em 2–4 semanas se vier alterado).
– Revisão conjunta dos resultados:
– Se tudo normal e idade <35: mantenha coito programado por mais alguns meses.
– Se 35+: considere reduzir o tempo de tentativa espontânea e discutir indução ovulatória, inseminação ou FIV, conforme achados.
– Elimine ruído: abandone de vez os mitos fertilidade (pílula “estraga”, “período certinho basta”, “homem que já é pai está imune”, “é só relaxar”, “é só a mulher investigar”).

Dúvidas frequentes, respondidas rapidamente:
– Relações todos os dias aumentam a chance? Ter relações dia sim, dia não durante a janela fértil costuma equilibrar qualidade do sêmen e cobertura do período.
– Suplementos milagrosos funcionam? Alguns micronutrientes podem ajudar casos específicos, mas nenhum suplemento substitui diagnóstico e conduta direcionada.
– Dietas restritivas ajudam? Prefira alimentação balanceada e sustentável; dietas radicais podem atrapalhar hormônios e adesão.

Ao longo de todo o processo, lembre-se: informação qualificada, ação no tempo certo e cuidado com o casal são os pilares para vencer crenças limitantes e potencializar resultados.

Para encerrar, recapitule os aprendizados essenciais:
– Ciclo regular não garante ovulação nem fertilidade intacta.
– Anticoncepcional não causa infertilidade; ele pode mascarar problemas que aparecerão ao suspender o método.
– Paternidade prévia não blinda o homem; fatores masculinos respondem por até 40% dos casos.
– Infertilidade é do casal: investiguem em paralelo desde o início.
– A idade importa, e planejar com dados faz diferença — especialmente após os 35 anos.

Pronto para dar o próximo passo? Marque uma consulta pré-concepcional, convide seu parceiro para uma avaliação conjunta e, se este conteúdo ajudou, compartilhe com quem precisa abandonar de vez os mitos fertilidade e avançar com segurança rumo ao positivo.

Juliana Amato, ginecologista, aborda mitos sobre infertilidade em um vídeo. Ela explica que muitas mulheres acreditam que menstruar regularmente significa que estão ovulando e são férteis, mas isso não é verdade, pois podem ter problemas como ovário policístico ou endometriose. Outro mito é que o uso de anticoncepcionais causa infertilidade, mas não há relação entre eles; a ovulação retorna após a suspensão do anticoncepcional. Além disso, homens que já têm filhos podem pensar que não têm problemas de fertilidade, mas a qualidade e quantidade de espermatozoides podem ser afetadas por diversas condições de saúde. Juliana destaca que a infertilidade pode ser causada tanto por mulheres quanto por homens, com cerca de 35 a 40% dos casos relacionados a problemas masculinos. Ela convida os espectadores a comentarem sobre outros mitos que conhecem.

Dra. Juliana Amato

Dra. Juliana Amato

Líder da equipe de Reprodução Humana do Fertilidade.org Médica Colaboradora de Infertilidade e Reprodução Humana pela USP (Universidade de São Paulo). Pós-graduado Lato Sensu em “Infertilidade Conjugal e Reprodução Assistida” pela Faculdade Nossa Cidade e Projeto Alfa. Master em Infertilidade Conjugal e Reprodução Assistida pela Sociedade Paulista de Medicina Reprodutiva. Titulo de especialista pela FEBRASGO (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) e APM (Associação Paulista de Medicina).

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