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Como aumentar suas chances de engravidar: estratégias práticas para casais

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O que muda quando vocês decidem tentar

Decidir ter um filho é um momento empolgante — e cheio de dúvidas. A boa notícia é que há muito que vocês podem fazer, já nas próximas semanas, para aumentar as chances de engravidar com segurança e serenidade. Em vez de apostar apenas no “deixar acontecer”, entender como funciona a janela fértil, ajustar pequenos hábitos e planejar um check-up rápido costuma acelerar o processo e reduzir frustrações. Este guia reúne estratégias práticas, baseadas em evidências, para orientar o casal desde o primeiro ciclo: do timing das relações ao que comer, de exames úteis a quando procurar ajuda. Com passos realistas e objetivos, vocês estarão mais bem preparados para transformar o desejo em um positivo.

Por onde começar: entendendo sua fertilidade

Conhecer o ciclo menstrual e a janela fértil é a base para tomar decisões mais inteligentes. Pense nisso como o “mapa” da sua fertilidade: quando vocês dominam o terreno, maximizam cada tentativa.

Como o ciclo funciona e a janela fértil

Em um ciclo típico de 28 dias, a ovulação tende a ocorrer por volta do dia 14, mas a variação é grande (ciclos entre 21 e 35 dias podem ser normais). A janela fértil compreende os 5 dias que antecedem a ovulação mais o dia da ovulação; relações nesses dias têm maior probabilidade de gerar gravidez.

– Ovulação: o óvulo vive cerca de 12 a 24 horas.
– Espermatozoides: podem viver até 5 dias no trato reprodutivo.
– Pico de fertilidade: de 1 a 2 dias antes da ovulação e no próprio dia.

Como prever a ovulação:
– Testes de LH (ovulação): indicam o pico do hormônio 24–36 horas antes da ovulação.
– Muco cervical: aspecto “clara de ovo” é um sinal de alta fertilidade.
– Apps e calendários: úteis, mas menos precisos que testes de LH; bons para aprender padrões.
– Temperatura basal: sobe discretamente após a ovulação; confirma, mas não antecipa.

Probabilidades reais por idade

É natural esperar um positivo rápido, mas conhecer probabilidades ajuda a ajustar expectativas.

– Casais saudáveis na faixa dos 20 e início dos 30: chance mensal de 20–25%.
– Aos 35 anos: chance mensal média de 15%.
– Aos 40 anos: cerca de 5–10% por ciclo.

Ainda assim, aproximadamente 80–85% dos casais concebem em até 12 meses com relações regulares sem proteção. Idade, ovulação irregular e qualidade do sêmen afetam esses números — por isso acompanhar sinais do corpo e ajustar hábitos faz diferença.

Táticas comprovadas para engravidar

Ter estratégias claras evita perder meses “no escuro”. Aqui estão ações com melhor relação esforço/benefício para quem quer engravidar.

Sincronize relações com a ovulação

Aproveitar a janela fértil é o passo mais impactante.

– Frequência ideal: a cada 1–2 dias durante a janela fértil. Para ciclos regulares, comece 3–4 dias antes do pico de LH e siga até um dia após.
– Se o ciclo é irregular: use testes de LH diariamente a partir do dia 10 do ciclo, observe muco cervical e mantenha relações a cada 2–3 dias ao longo do mês para cobrir variações.
– Melhor horário do dia: sem diferença significativa; priorize conforto e constância.
– Posições e “levantar as pernas”: mitos. Não há evidências de que aumentem as chances.

Dica prática: estruture uma “semana fértil” no calendário. Assim, mesmo se o pico de LH variar, vocês terão coberto o período mais importante.

Frequência, lubrificantes e mitos

Detalhes aparentemente pequenos podem afetar a jornada.

– Frequência fora da janela fértil: manter relações a cada 2–3 dias durante todo o ciclo é uma estratégia simples para não perder o timing, especialmente com ciclos irregulares.
– Lubrificantes: alguns reduzem a mobilidade dos espermatozoides. Prefira opções “fertility-friendly” (à base de hidroxi-etilcelulose). Ex.: produtos específicos para tentantes, como os que indicam ser compatíveis com espermatozoides. Evite os que contêm espermicidas.
– Orgasmo feminino: não há evidências robustas de que aumente a taxa de concepção, mas prazer e relaxamento ajudam a manter a consistência da rotina.
– Ducha vaginal: evite. Pode alterar o pH e o muco, reduzindo a fertilidade.

Se o objetivo é engravidar, priorize regularidade, conforto e timing — sem pressões que tornem a experiência mecânica.

Otimize saúde e estilo de vida dos dois

Fertilidade é um projeto de casal. Pequenas mudanças tendem a somar: nutrição, sono, exercício e reduções inteligentes em álcool e cafeína podem melhorar a qualidade do óvulo e do esperma.

Nutrição, suplementos e álcool/cafeína

Uma alimentação equilibrada apoia hormônios, ovulação e parâmetros seminais.

– Prato base: metade vegetais e frutas; um quarto proteínas magras (peixes, ovos, leguminosas); um quarto carboidratos integrais; boas gorduras (azeite, abacate, nozes).
– Priorize: fontes de ferro, zinco, iodo e selênio; ômega-3; laticínios (para algumas mulheres, versões integrais podem favorecer ovulação).
– Ácido fólico: comece 400–800 mcg/dia pelo menos 1 mês antes de tentar, mantendo até 12 semanas de gestação (ou conforme orientação). Reduz risco de defeitos do tubo neural.
– Vitamina D: mantenha níveis adequados; se baixos, suplementação orientada pode ajudar.
– Para homens: antioxidantes (vitamina C, E), zinco, folato e coenzima Q10 têm evidências de melhora em parâmetros do sêmen em alguns casos.
– Cafeína: limite a 200 mg/dia (aprox. 1–2 cafés filtrados).
– Álcool: para mulheres tentando engravidar, o ideal é evitar. Para homens, modere (até 1–2 doses/dia). Episódios de consumo excessivo prejudicam mais.

Peso, sono e estresse

Corpo e mente regulam a engrenagem hormonal.

– Peso corporal: IMC entre 20 e 25 costuma associar-se a melhor fertilidade. Perdas de 5–10% em quem tem sobrepeso já podem regular a ovulação. Em casos de baixo peso, ganhar alguns quilos pode restaurar o ciclo.
– Exercício: 150–300 minutos/semana de atividade aeróbica moderada + 2 sessões de força. Evite treinos extenuantes se o ciclo está irregular.
– Sono: 7–9 horas/noite. Ritmo estável favorece a liberação hormonal.
– Estresse: não “causa” infertilidade por si só, mas pode bagunçar hábitos e libido. Estratégias úteis: respiração, meditação guiada, terapia breve focada e rituais de desconexão antes de dormir.

Para homens, evite calor intenso e prolongado nos testículos (banheiras quentes frequentes, saunas prolongadas, usar notebook diretamente no colo) e opte por roupas íntimas que não apertem excessivamente.

Preparo médico essencial antes de tentar

Um check-up enxuto evita surpresas durante a tentativa e protege a saúde da gestação.

Exames básicos e vacinas

Investigue o que pode ser ajustado já no primeiro mês.

– Hemograma, glicemia, TSH e prolactina: avaliam bases hormonais e metabólicas.
– Sorologias: rubéola, varicela, hepatites, HIV e sífilis. Verifique imunidade e trate/previna o que for necessário.
– Papanicolau e ISTs: atualize o rastreio e trate eventuais infecções.
– Vitamina D e ferritina: corrigir deficiências contribui para bem-estar e preparo.
– Vacinas: esteja imune a rubéola e varicela antes de engravidar. Atualize dTpa e influenza. A vacinação contra COVID-19 é recomendada e segura em planejamento reprodutivo.

Para o parceiro, um espermograma simples pode ser útil se houver histórico de varicocele, cirurgias, uso de anabolizantes, tabagismo intenso ou tentativas por mais de 6 meses sem sucesso.

Remédios, condições crônicas e ISTs

Revise medicamentos e doenças com seu médico.

– Medicações a avaliar: isotretinoína, alguns anti-hipertensivos e anticonvulsivantes, anticoagulantes, retinoides e certos antidepressivos podem exigir ajuste. Evite uso rotineiro de anti-inflamatórios próximos à ovulação.
– Doenças crônicas: diabetes bem controlado, TSH entre 1 e 2,5 mUI/L e manejo de hipertensão e doenças autoimunes reduzem riscos na concepção e gestação.
– ISTs: trate antes de tentar. Algumas infecções podem afetar trompas e espermatozoides.

Dica prática: leve ao consultório uma lista de medicamentos, suplementos e histórico de ciclos. Facilita decisões rápidas e personalizadas.

Quando e como procurar ajuda profissional

Saber o momento de buscar apoio economiza tempo e ansiedade. A avaliação costuma ser objetiva e com etapas claras para ambos.

Sinais de alerta e prazos por idade

Procure um especialista em reprodução humana se:

– Menos de 35 anos: 12 meses de tentativas sem sucesso.
– Entre 35 e 39 anos: 6 meses tentando.
– A partir de 40 anos: procure avaliação imediata, mesmo após poucos ciclos.
– Em qualquer idade, antes dos prazos, se houver: ciclos muito irregulares ou ausência de menstruação, dor pélvica crônica, endometriose, duas ou mais perdas gestacionais, cirurgias pélvicas prévias, quimioterapia, varicocele, disfunção erétil ou anejaculação.

Primeiros passos da investigação (ela e ele)

A abordagem é integrada.

– Mulher:
Ultrassom transvaginal: avalia ovários e útero.
– Exames hormonais: FSH, LH, estradiol (início do ciclo) e progesterona (fase lútea) para confirmar ovulação.
– Reserva ovariana: AMH e contagem de folículos antrais.
– Avaliação de trompas: histerossalpingografia (HSG) ou exames equivalentes.
– Homem:
– Espermograma: volume, concentração, motilidade e morfologia (parâmetros de referência atualizados). Em resultados alterados, repetir após 2–3 meses e, se necessário, avaliação urológica.
– Fatores de estilo de vida: tabaco, álcool, calor e medicamentos.

O objetivo é identificar rapidamente o fator (ovulatório, tubário, uterino, masculino ou misto) e direcionar o tratamento mais simples e eficaz.

Opções de tratamento: do mais simples ao mais avançado

Quando é hora de intervir, começar pelo menos invasivo e de melhor custo-benefício é geralmente a regra, ajustando à idade e ao fator identificado.

Indução de ovulação e coito programado

Indicados para anovulação ou ovulação irregular, como em muitas mulheres com SOP.

– Medicamentos: letrozol (primeira linha em muitos casos) ou citrato de clomifeno, sob acompanhamento.
– Monitorização: ultrassonografia para acompanhar crescimento folicular e orientar o melhor dia para relações.
– Resultados: muitas gestantes em até 3–6 ciclos, especialmente quando o fator masculino é normal.

Inseminação intrauterina (IIU) e fertilização in vitro (FIV)

Quando o espermograma está discretamente alterado, há fator cervical ou causa inexplicada, a IIU pode ser uma ponte eficaz.

– IIU: concentra espermatozoides e os deposita no útero próximo ao momento da ovulação. Geralmente combinada com indução leve de ovulação. Costuma-se tentar 3 ciclos antes de avançar.
– FIV: indicada em fator tubário, endometriose moderada a grave, reserva ovariana baixa, idade mais avançada ou após falhas em IIU. Permite avaliar embriões e, quando indicado, fazer testes genéticos. Em fator masculino grave, a ICSI (injeção intracitoplasmática de espermatozoide) pode ser necessária.

As taxas de sucesso variam com a idade e a causa. Discutir números personalizados com a equipe ajuda a alinhar expectativas e planejamento financeiro.

Plano prático de 90 dias para começar com confiança

Transforme informação em ação com um roteiro simples e realista. Em três meses, vocês conseguem organizar o essencial e aumentar consistentemente as chances de engravidar.

Semanas 1–2: preparação inteligente

– Agende consultas: ginecologista/obstetra e, se possível, avaliação inicial para o parceiro.
– Exames: peça o básico (hemograma, TSH, sorologias, vitamina D, ferritina) e atualize rastreios.
– Suplementos: inicie ácido fólico 400–800 mcg/dia; ajuste vitamina D conforme resultado.
– Estoque o necessário: testes de LH, termômetro basal (opcional), lubrificante compatível com fertilidade.
– Estilo de vida: organize refeições baseadas em alimentos in natura, defina horários de sono e 3 sessões de atividade física por semana.
– Planejamento de ciclo: escolha app para registrar menstruação, muco e testes de LH.

Semanas 3–6: rotina fértil em prática

– Relações direcionadas: a cada 1–2 dias na janela fértil. Se o ciclo for incerto, mantenha a cada 2–3 dias ao longo do mês.
– Nutrição e hidratação: duas porções de frutas + duas de vegetais por dia; inclua peixes gordos 1–2x/semana ou ômega-3.
– Reduções graduais: limite cafeína a 1–2 xícaras/dia; substitua álcool por bebidas sem álcool durante a fase de tentativa.
– Tabagismo: iniciar plano de cessação. Mesmo reduções parciais já melhoram parâmetros seminais e ovulatórios.
– Estresse: 10 minutos/dia de respiração ou meditação; um encontro semanal como “pausa do projeto” para manter o vínculo leve.

Semanas 7–12: ajustes finos e consistência

– Reavalie dados do ciclo: padrões de muco, dia do pico de LH e sintomas. Ajuste o início da “semana fértil” conforme observado.
– Checagem de aderência: conferência de suplementos, sono e treinos.
– Parceiro em foco: revisar fatores masculinos (álcool, calor, exercícios, suplementos antioxidantes se indicados).
– Sinais para acionar o médico: dor pélvica, ciclos com mais de 45 dias, menstruações muito escassas ou ausentes, ou 3 ciclos sem pista de ovulação nos testes de LH.
– Teste de gravidez: 12–14 dias após o pico de LH. Evite testar muito cedo para reduzir falsos negativos.

Ao final de 90 dias, vocês terão uma base sólida: dados do ciclo, hábitos ajustados e uma rotina de tentativas eficiente — tudo que sustenta a decisão de engravidar com mais tranquilidade.

Mitos comuns e verdades úteis

Separar mito de fato poupa tempo e frustração — e ajuda o casal a focar no que realmente move o ponteiro.

O que não ajuda (ou ajuda menos do que se pensa)

– Posições sexuais “milagrosas”: sem efeito comprovado.
– Elevar as pernas após a relação: desnecessário.
– Ducha vaginal ou uso de sabonetes internos: prejudicam o muco e o pH.
– Beber x ou tomar chás “milagrosos”: evidência fraca; priorize hábitos básicos bem feitos.

O que realmente faz diferença

– Janela fértil bem coberta + testes de LH quando preciso.
– Ácido fólico para ela; antioxidantes selecionados para ele, se indicados.
– Peso saudável, sono adequado, atividade física regular.
– Álcool sob controle, tabagismo zero, calor testicular reduzido.
– Check-up enxuto, vacinas em dia, ISTs tratadas.

Se o objetivo é engravidar, consistência nos fundamentos supera “truques” isolados.

Resolvendo desafios comuns

Nem sempre tudo sai como planejado. Antecipar soluções economiza meses.

Ciclos irregulares

– Estratégia: relações a cada 2–3 dias durante todo o ciclo + testes de LH por mais dias.
– Avaliar: tireoide, prolactina, síndrome dos ovários policísticos (SOP), peso e estresse.
– Intervenções: ajustes de estilo de vida e, se necessário, indução de ovulação supervisionada.

Qualidade do sêmen

– Organização: dois espermogramas com intervalo de 2–3 meses.
– Ações: suspender tabaco, reduzir álcool, perder peso se necessário, controlar calor testicular, considerar antioxidantes (sob orientação).
– Prazos: parâmetros melhoram gradualmente, pois o ciclo do espermatozoide leva cerca de 72–90 dias.

Endometriose e dor pélvica

– Avalie cedo: dor nas menstruações, dor durante relações e alterações intestinais podem sugerir endometriose.
– Opções: abordagem individualizada; em alguns casos, partir direto para técnicas como FIV encurta caminho.

Perdas gestacionais

– Duas ou mais perdas: justificam investigação (genética do casal, trombofilias selecionadas, cavidade uterina).
– Estilo de vida e suporte emocional: fundamentais durante a reavaliação.

Checklist rápido para o casal

– Estabelecemos nossa “semana fértil” no calendário?
– Temos testes de LH e conhecemos o muco cervical?
– Ácido fólico iniciado e vacinações atualizadas?
– Café moderado, álcool sob controle e tabagismo zero?
– Exercício regular, sono de 7–9 horas e manejo de estresse?
– Lubrificante compatível com fertilidade disponível?
– Revisão de medicamentos feita com o médico?
– Plano de ação se não houver positivo em 6–12 meses (conforme idade)?

Dar esses “check” reduz variáveis e aumenta a probabilidade de um positivo mais cedo.

O que lembrar ao longo do caminho

A tentativa de engravidar é um processo, não uma prova de velocidade. Pequenas vitórias semanais — como identificar o pico de LH, melhorar a qualidade do sono ou reduzir o álcool — se acumulam em resultados concretos. Apoio mútuo e comunicação aberta entre o casal mantêm a motivação mesmo quando um ciclo não sai como esperado.

Se após os prazos sugeridos o positivo não vier, isso não é um “fracasso”: é um sinal de que vale a pena acelerar o diagnóstico e, se necessário, usar ferramentas modernas que estão aí para ajudar. O objetivo é o mesmo de vocês: um bebê saudável, no momento certo, pelo caminho mais curto e seguro.

Para quem quer engravidar com mais confiança, o melhor próximo passo é simples: escolham hoje a data de início do seu plano de 90 dias, agendem o check-up, comprem os itens essenciais e marquem no calendário a próxima janela fértil. A partir daí, a ciência e a consistência fazem o resto. Que o próximo teste traga boas notícias!

https://www.youtube.com/watch?v=

Dra. Juliana Amato

Dra. Juliana Amato

Líder da equipe de Reprodução Humana do Fertilidade.org Médica Colaboradora de Infertilidade e Reprodução Humana pela USP (Universidade de São Paulo). Pós-graduado Lato Sensu em “Infertilidade Conjugal e Reprodução Assistida” pela Faculdade Nossa Cidade e Projeto Alfa. Master em Infertilidade Conjugal e Reprodução Assistida pela Sociedade Paulista de Medicina Reprodutiva. Titulo de especialista pela FEBRASGO (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) e APM (Associação Paulista de Medicina).

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