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Pílula do dia seguinte — mitos, riscos e quando usar

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O que é a contracepção de emergência e quando considerar seu uso

A contracepção de emergência é um recurso seguro e pontual para reduzir o risco de gravidez após uma relação sexual desprotegida ou falha do método habitual. Ela ganhou popularidade por ser acessível e prática, mas ainda gera muitas dúvidas, especialmente sobre como e quando utilizar a pílula do dia seguinte com segurança. Entender seu funcionamento, suas indicações e seus limites é fundamental para tomar decisões informadas no momento certo.

Use esse método em situações específicas, como ruptura do preservativo, esquecimento de comprimidos anticoncepcionais, atraso na injeção, relação sem proteção no período fértil ou após uma agressão sexual. O foco é agir cedo: quanto antes for tomada, maior a eficácia. E lembre-se, a contracepção de emergência não substitui um método contraceptivo de uso contínuo.

Situações comuns de uso

– Preservativo que rompeu, escorregou ou foi usado incorretamente.
– Esquecimento de pílulas combinadas ou de progestagênio isolado, principalmente se ultrapassar a janela de segurança.
– Atraso na troca do adesivo, na colocação do anel vaginal ou na aplicação de injeções.
– Relação sexual sem proteção no período fértil presumido.
– Situações de violência sexual, em que a prioridade é procurar atendimento de urgência especializado.

Janela de tempo e eficácia

– Até 24 horas: maior chance de sucesso.
– Até 72 horas: ainda é eficaz, especialmente com levonorgestrel.
– Até 120 horas (5 dias): o ulipristal e o DIU de cobre podem ser opções mais efetivas.
– Quanto mais cedo a tomada, melhor; atrasos reduzem a eficácia.

Tipos de pílula do dia seguinte e como tomar

Nem toda contracepção de emergência é igual. Existem formulações hormonais e um método não hormonal extremamente eficaz. Conhecer as opções ajuda a escolher a mais adequada para cada contexto.

Levonorgestrel (dose única ou duas doses)

– Como funciona: o levonorgestrel atua principalmente atrasando ou inibindo a ovulação, impedindo que o óvulo seja liberado.
– Regimes disponíveis: dose única (geralmente 1,5 mg) ou dois comprimidos de 0,75 mg com 12 horas de intervalo. A dose única é mais prática e preferida quando disponível.
– Janela de uso: ideal até 72 horas, com alguma eficácia até 120 horas, embora menor.
– Regras de uso: se vomitar em até 3 horas após a tomada, repita a dose.
– Retomada da contracepção regular: pode reiniciar o anticoncepcional hormonal habitual no dia seguinte, usando preservativo por pelo menos 7 dias como apoio.

Ulipristal acetato (até 5 dias)

– Como funciona: modula receptores de progesterona, atrasando a ovulação mesmo perto do pico fértil.
– Janela de uso: eficaz até 120 horas (5 dias) após a relação desprotegida.
– Regras de uso: não iniciar pílulas hormonais comuns imediatamente depois do ulipristal; aguarde 5 dias e, então, comece o método regular com preservativo por 7 dias.
– Amamentação: recomenda-se ordenhar e descartar o leite por alguns dias (até 7) após o uso; converse com seu ginecologista para individualizar.

Mitos e verdades sobre a pílula do dia seguinte

A desinformação é uma das principais causas de uso inadequado da contracepção de emergência. Abaixo, os mitos mais frequentes — e o que a ciência diz.

O que ela faz e o que não faz

– Mito: a pílula do dia seguinte é abortiva.
Verdade: ela atua antes da implantação, principalmente inibindo a ovulação. Não interrompe uma gravidez estabelecida.

– Mito: pode ser tomada repetidamente como método mensal.
Verdade: não é método de rotina. O uso repetido aumenta irregularidades do ciclo, favorece efeitos colaterais e diminui a previsibilidade do ciclo. É um “plano B” ocasional.

– Mito: protege contra ISTs.
Verdade: não protege contra infecções sexualmente transmissíveis. O preservativo permanece essencial.

Fertilidade, ciclo e proteção contra ISTs

Fertilidade futura: não há evidência de que o uso ocasional prejudique a fertilidade.
– Ciclo menstrual: pode adiantar, atrasar ou causar escape. Normalmente, o ciclo se regulariza no mês seguinte.
– Teste de gravidez: se a menstruação atrasar mais de 7 dias além do esperado, faça um teste e procure avaliação médica.
– ISTs: após relação de risco, avalie testagem e profilaxias. Em casos de violência sexual, procure imediatamente atendimento de urgência.

Riscos, efeitos colaterais e quem deve ter cautela

A contracepção de emergência é segura para a maioria das pessoas, mas, como qualquer intervenção, exige atenção a efeitos colaterais, interações e condições clínicas específicas.

Efeitos comuns e quando buscar ajuda

– Efeitos esperados: náusea, vômito, tontura, cefaleia, dor mamária, cólica leve, sonolência e sangramento de escape.
– O que observar: menstruação pode adiantar ou atrasar. Se houver atraso superior a uma semana, faça um teste.
– Sinais de alerta: dor abdominal intensa, sangramento muito forte ou sintomas persistentes. Procure assistência médica.

Trombose, enxaqueca e interações medicamentosas

– Trombose: o uso eventual de levonorgestrel em dose única tem baixo risco para a maioria das mulheres. Porém, histórico pessoal de trombose, enxaqueca com aura, imobilidade prolongada ou fatores trombogênicos relevantes exigem orientação individual. Não “some” hormônios desnecessariamente em sequência; tenha acompanhamento ao associar com anticoncepcionais habituais.
– Interações: medicamentos indutores enzimáticos (alguns anticonvulsivantes como carbamazepina e fenitoína, rifampicina, antirretrovirais específicos e erva de São João) podem reduzir a eficácia, sobretudo do levonorgestrel. Nesses casos, o DIU de cobre é a opção mais confiável.
– Amamentação: com levonorgestrel, muitas diretrizes permitem amamentar normalmente; para reduzir exposição, algumas mulheres optam por descartar leite por 8–24 horas. Com ulipristal, recomenda-se intervalo maior. Individualize com seu médico.

Alternativas e plano após a emergência

Mais importante do que resolver o “agora” é evitar novos sustos. Uma estratégia clara reduz falhas e traz tranquilidade.

DIU de cobre como método de emergência

– Eficácia: acima de 99% quando inserido em até 5 dias após a relação desprotegida (ou até 5 dias após a ovulação).
– Vantagens: não hormonal, proteção contínua por até 10 anos, eficácia consistente independentemente do IMC e de interações medicamentosas.
– Desvantagens: requer procedimento e disponibilidade de profissional capacitado. Pode aumentar o fluxo e cólicas em algumas mulheres.
– Para quem considerar: quem quer a maior eficácia possível e/ou um método de longa duração que já fique ativo imediatamente.

Como retomar ou iniciar anticoncepção regular

– Após levonorgestrel: retome ou inicie seu anticoncepcional no dia seguinte. Use preservativo por 7 dias (ou até 2 dias, se for pílula só de progestagênio, conforme orientação local).
– Após ulipristal: aguarde 5 dias antes de começar um método hormonal (o ulipristal pode ser antagonizado por progestagênios). Use preservativo por pelo menos 7 dias após iniciar o método.
– Opções para reduzir falhas:
1. Métodos de longa duração (DIU de cobre, DIU hormonal, implante).
2. Pílulas com lembretes no celular, adesivo semanal ou anel mensal.
3. Associar preservativo para proteção contra ISTs e maior segurança anticonceptiva.

Passo a passo prático após uma relação desprotegida

Na dúvida, agir com método evita ansiedade e reduz riscos. Siga este roteiro simples.

Checklist imediato

1. Anote data e horário da relação e do seu último período menstrual.
2. Avalie o tempo decorrido: se estiver nas primeiras 24–72 horas, a pílula do dia seguinte com levonorgestrel é uma opção. Entre 72 e 120 horas, considere ulipristal ou DIU de cobre.
3. Considere fatores pessoais: IMC elevado, uso de medicamentos que interagem ou estar no período ovulatório podem orientar a escolha pelo ulipristal ou pelo DIU.
4. Evite “duplicar” hormônios sem orientação: não tome diferentes pílulas de emergência em sequência nem associe ulipristal com progestagênio logo depois.
5. Se vomitar em até 3 horas, redose conforme o tipo usado.
6. Programe-se para um teste de gravidez se a menstruação atrasar mais de 7 dias.
7. Marque uma consulta para discutir um método de uso contínuo.

Sinais de alerta e teste de gravidez

– Faça um teste:
• Se a menstruação atrasar mais de uma semana.
• Se houver sintomas sugestivos de gravidez.
– Procure atendimento:
• Dor pélvica intensa, tontura ou desmaio (raros, mas podem sugerir complicações que merecem avaliação).
• Sangramento muito intenso ou prolongado.
– Se a relação foi de risco para ISTs:
• Busque avaliação para profilaxias e exames, especialmente em até 72 horas para PEP (profilaxia pós-exposição ao HIV) quando indicada.
• Em casos de violência sexual, procure imediatamente um serviço de urgência especializado para cuidados integrais.

Quando a pílula do dia seguinte não é a escolha ideal

A contracepção de emergência é valiosa, mas há cenários em que alternativas superam seu desempenho ou são mais seguras.

Período muito próximo da ovulação

– Se o pico fértil já ocorreu, a eficácia do levonorgestrel cai. O ulipristal pode manter melhor desempenho, e o DIU de cobre é o mais eficaz em qualquer fase do ciclo.

Uso de medicamentos que reduzem a eficácia

– Com indutores enzimáticos, o DIU de cobre oferece proteção praticamente garantida. Se não houver acesso imediato, converse com o médico sobre estratégias adicionais e necessidade de acompanhamento mais próximo.

Dicas para prevenir falhas no futuro

Prevenção é sempre o melhor caminho. Pequenos ajustes de rotina reduzem drasticamente o risco de sustos.

Organização e escolhas inteligentes

– Deixe preservativos acessíveis e confira o prazo de validade.
– Configure alarmes para pílulas, injeções ou trocas de anel/adesivo.
– Combine métodos: preservativo + método hormonal ou LARC (método reversível de longa duração) elevam a segurança.
– Agende revisões regulares com seu ginecologista para adequar o método ao seu momento de vida.

Educação sexual e comunicação

– Converse com o(a) parceiro(a) sobre prevenção e responsabilidade compartilhada.
– Busque informação em fontes confiáveis.
– Em adolescentes e jovens, envolva a rede de apoio para garantir acesso a atendimento e orientação.

Perguntas rápidas e respostas objetivas

– Posso usar a pílula do dia seguinte duas vezes no mesmo ciclo?
Evite. Embora seja possível do ponto de vista de segurança, o ideal é resolver a necessidade de um método regular para não acumular efeitos e irregularidades.

– Tomei levonorgestrel e depois tive outra relação desprotegida dias depois. O que faço?
Use preservativo até regularizar o método. Se for necessário, discuta com seu médico a necessidade de nova dose ou outra estratégia.

– Tenho IMC elevado: a pílula funciona para mim?
A eficácia do levonorgestrel pode ser menor em IMC mais alto; ulipristal ou DIU de cobre tendem a ser escolhas melhores.

– Posso beber álcool ao usar a pílula?
Não há interação relevante com álcool, mas priorize sua segurança e evite decisões impulsivas. O mais importante é a tomada dentro da janela adequada.

– A pílula altera exames hormonais?
O uso pontual pode influenciar discretamente o ciclo, mas não costuma comprometer avaliações futuras. Se for realizar exames, informe a data de uso ao médico.

Resumo prático para decisões seguras

– O que é: um recurso de emergência para prevenir gravidez após falha ou ausência de proteção.
– Quando usar: o quanto antes; idealmente nas primeiras 24–72 horas.
– Opções: levonorgestrel, ulipristal e DIU de cobre (o mais eficaz).
– Limites: não é método de rotina; não protege contra ISTs.
– Riscos: geralmente leves; atenção a histórico pessoal e interações medicamentosas.
– Próximos passos: planeje um método regular e mantenha preservativos como apoio.

Tomar decisões informadas elimina dúvidas e reduz a ansiedade. Se você precisa de orientação sobre a pílula do dia seguinte, escolha certa para o seu perfil ou quer migrar para um método mais confiável, agende uma consulta com um ginecologista e construa, hoje, um plano contraceptivo que traga segurança todos os dias.

Juliana Matos, ginecologista e obstetra, explica sobre a contracepção de emergência, que é uma medicação utilizada para evitar a gravidez após relações sexuais desprotegidas ou falhas em métodos anticoncepcionais. Ela destaca que esse método não deve ser usado como anticoncepcional regular, pois possui uma dosagem hormonal alta que pode desregular o ciclo menstrual e aumentar os riscos de trombose e acidentes vasculares. A contracepção de emergência pode ser encontrada em forma de comprimidos, que devem ser tomados conforme orientação médica. Juliana recomenda buscar ajuda profissional em casos de agressão sexual e enfatiza a importância de esclarecer dúvidas com um ginecologista. Ela também convida os espectadores a se inscreverem no canal e ativarem as notificações.

Dra. Juliana Amato

Dra. Juliana Amato

Líder da equipe de Reprodução Humana do Fertilidade.org Médica Colaboradora de Infertilidade e Reprodução Humana pela USP (Universidade de São Paulo). Pós-graduado Lato Sensu em “Infertilidade Conjugal e Reprodução Assistida” pela Faculdade Nossa Cidade e Projeto Alfa. Master em Infertilidade Conjugal e Reprodução Assistida pela Sociedade Paulista de Medicina Reprodutiva. Titulo de especialista pela FEBRASGO (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) e APM (Associação Paulista de Medicina).

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