Endometrioma é um cisto no ovário formado por endometriose — tecido parecido com o endométrio, a camada que reveste o útero por dentro, que se implanta no ovário e sangra a cada ciclo. O sangue acumulado fica escuro e espesso, por isso ele também é chamado de cisto de chocolate. É benigno, mas pode causar cólica menstrual forte, dor pélvica, dor na relação sexual e dificuldade para engravidar. O diagnóstico é feito por ultrassonografia transvaginal ou ressonância, e o tratamento vai de remédios hormonais à cirurgia, sempre levando em conta o desejo de ter filhos.
Muitas mulheres só descobrem que têm endometrioma depois de meses — às vezes anos — convivendo com dor sem resposta, ou quando investigam por que não conseguem engravidar. Neste guia, a Dra. Juliana Amato, ginecologista especialista em reprodução humana, explica o que é o endometrioma, como ele se forma, quais sintomas merecem atenção e como o tratamento é escolhido para aliviar a dor sem comprometer a fertilidade.
O que é endometrioma
O endometrioma é um tipo de cisto ovariano ligado à endometriose, a doença em que células semelhantes às do endométrio crescem fora do útero. Quando essas células se instalam no ovário, elas continuam respondendo aos hormônios do ciclo menstrual — crescem e sangram todo mês. Sem ter por onde sair, esse sangue fica preso e forma uma bolsa de conteúdo escuro e espesso.
É essa cor que dá ao endometrioma o apelido de cisto de chocolate. Apesar do nome, é uma condição que merece atenção: cerca de 17% a 44% das mulheres com endometriose também têm endometriomas, o que faz dele uma das formas mais comuns da doença.
Qual a diferença entre endometriose e endometrioma?
Endometriose é a doença: tecido parecido com o endométrio crescendo fora do útero, em qualquer lugar da pelve — peritônio, ligamentos, intestino, bexiga, ovários. Endometrioma é uma das formas que ela pode assumir: o cisto que se forma especificamente dentro do ovário. Toda mulher com endometrioma tem endometriose, mas nem toda mulher com endometriose tem endometrioma.
Na prática, a presença de endometrioma costuma indicar uma endometriose mais extensa, e por isso a avaliação deve olhar para a pelve como um todo, e não apenas para o cisto.
Como o endometrioma se forma
A explicação mais aceita é a menstruação retrógrada: parte do sangue menstrual volta pelas trompas em direção à pelve, levando células do endométrio que se implantam no ovário. Ali, essas células reagem ao estrogênio e à progesterona como se estivessem dentro do útero, provocando pequenos sangramentos a cada ciclo. Com o tempo, o sangue acumulado forma o cisto.
Esse processo pode ser silencioso por muito tempo. À medida que o cisto cresce, a inflamação crônica ao redor pode gerar aderências e tecido cicatricial (fibrose), o que ajuda a explicar a dor e o impacto sobre o ovário.
Fatores de risco
- Exposição prolongada ao estrogênio — o hormônio estimula o crescimento do tecido endometrial, dentro e fora do útero (primeira menstruação precoce, ciclos curtos, menstruações longas).
- Histórico familiar — mulheres com mãe, irmã ou filha com endometriose têm risco maior, o que sugere predisposição genética.
- Endometriose já diagnosticada, principalmente nas formas mais avançadas.
Sintomas do endometrioma
Os sintomas variam de mulher para mulher e nem sempre acompanham o tamanho do cisto. Alguns endometriomas são descobertos por acaso em um ultrassom de rotina. Os sinais mais comuns são:
- Dor pélvica, que costuma piorar durante a menstruação (cólica forte, que não melhora com analgésico comum), mas pode estar presente o mês todo.
- Dor durante a relação sexual (dispareunia), principalmente na penetração profunda — um sintoma que afeta o corpo e a vida a dois.
- Dificuldade para engravidar, presente em cerca de 30% a 50% dos casos.
- Dor ao evacuar ou urinar durante a menstruação, quando a endometriose atinge intestino ou bexiga.
- Sangramento menstrual irregular ou mais intenso em algumas mulheres.
Cólica que impede de trabalhar, estudar ou sair de casa não é normal e deve ser investigada.
Endometrioma pode impedir de engravidar?
Pode dificultar, mas não impede: muitas mulheres com endometrioma engravidam, naturalmente ou com ajuda de tratamento. A dificuldade vem de mais de um mecanismo:
- Inflamação na pelve, que prejudica a qualidade dos óvulos, o encontro com o espermatozoide e a implantação do embrião.
- Aderências e fibrose, que podem distorcer as trompas e o ovário.
- Redução da reserva ovariana: o cisto ocupa e agride o tecido saudável do ovário, onde ficam os folículos. A reserva pode ser estimada pelo exame de hormônio antimülleriano (AMH) e pela contagem de folículos no ultrassom.
Por isso, quem tem endometrioma e deseja engravidar — agora ou no futuro — deve ser avaliada por um especialista em reprodução humana antes de decidir qualquer tratamento. Veja também como a endometriose afeta as chances de engravidar.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico começa pela conversa sobre os sintomas e pelo exame ginecológico, e é confirmado por exames de imagem:
- Ultrassonografia transvaginal — é o exame mais usado e muito eficiente para identificar cistos ovarianos. O endometrioma tem uma aparência típica, de conteúdo homogêneo, “em vidro fosco”. Com preparo intestinal, o ultrassom também mapeia focos de endometriose profunda.
- Ressonância magnética da pelve — indicada em casos mais complexos, para detalhar a extensão da doença e planejar a cirurgia.
- Exames de sangue — o CA-125 pode estar elevado, mas não confirma nem descarta o diagnóstico. O AMH ajuda a avaliar a reserva ovariana quando há desejo de gravidez.
O diagnóstico correto é importante porque o endometrioma pode ser confundido com outros tipos de cisto. Um diagnóstico errado atrasa o tratamento e prolonga a dor.
Endometrioma é câncer?
Não. O endometrioma é uma lesão benigna. Estudos mostram que mulheres com endometriose ovariana têm um risco discretamente maior de alguns tipos específicos de câncer de ovário, mas o risco absoluto continua baixo. Na prática, isso significa acompanhamento regular com ultrassom e atenção a mudanças no aspecto do cisto — e não motivo para pânico.
Endometrioma desaparece sozinho?
Em geral, não. Diferente dos cistos funcionais do ovário, que surgem e somem com o ciclo, o endometrioma tende a permanecer ou crescer enquanto houver estímulo hormonal. O tratamento com hormônios controla os sintomas e pode frear o crescimento — às vezes até reduzir o cisto —, mas raramente o elimina por completo. Na menopausa, com a queda do estrogênio, a doença costuma ficar menos ativa.
Tratamento do endometrioma
Não existe um tratamento único. A escolha depende da intensidade da dor, do tamanho e do aspecto do cisto, da idade, da reserva ovariana e, principalmente, do desejo de engravidar.
Tratamento clínico (hormonal)
Em casos leves ou quando o objetivo principal é aliviar a dor, usam-se medicamentos hormonais que reduzem ou suspendem a menstruação — anticoncepcionais contínuos, progestagênios (como o dienogeste) e outras opções. Eles diminuem a inflamação e a dor, mas não são indicados para quem está tentando engravidar, já que bloqueiam a ovulação.
Cirurgia
Nos casos mais severos — dor que não melhora com remédio, cisto grande, crescimento rápido ou aspecto que levante dúvida no exame — a cirurgia por videolaparoscopia pode ser recomendada. Ela alivia a dor e, em algumas mulheres, aumenta a chance de gravidez natural.
Qual o tamanho do endometrioma para operar?
Não há um número único. Cistos acima de 4 a 5 cm costumam ser discutidos com mais atenção, mas a decisão leva em conta o conjunto: sintomas, aspecto no exame, reserva ovariana e planos de gravidez. Um endometrioma pequeno e sem sintomas pode apenas ser acompanhado.
Cirurgia e fertilidade: o cuidado com a reserva ovariana
Aqui está o ponto mais delicado. Ao retirar o cisto, o cirurgião inevitavelmente remove ou lesa parte do tecido saudável do ovário, e isso pode diminuir a reserva ovariana — especialmente se a cirurgia for repetida ou feita nos dois ovários. Por isso, para quem deseja engravidar, a cirurgia não deve ser feita no automático. Operar apenas para melhorar o resultado da fertilização in vitro não é recomendado de rotina.
Uma estratégia importante é congelar os óvulos antes da cirurgia, preservando a chance de engravidar no futuro. Saiba mais sobre o congelamento de óvulos.
Tratamento para quem quer engravidar
Dependendo da idade, da reserva ovariana, das trompas e do tempo de tentativa, o caminho pode ser tentar naturalmente com acompanhamento, fazer inseminação ou partir direto para a fertilização in vitro (FIV), que costuma ser a opção mais eficaz em mulheres com endometrioma e reserva reduzida.
Preservar a fertilidade antes da cirurgia. Quando a cirurgia é indicada e há desejo de engravidar mais tarde, uma estratégia cada vez mais adotada é o congelamento de óvulos antes da remoção do endometrioma. Ele mantém a possibilidade de gestação futura e reduz o risco de infertilidade decorrente tanto da doença quanto do procedimento.
O que acontece se não tratar o endometrioma?
Sem acompanhamento, o endometrioma pode crescer, aumentar a dor, formar aderências e continuar reduzindo a reserva ovariana — o que pesa mais para quem ainda quer ter filhos. Raramente, o cisto pode romper ou torcer o ovário, causando dor súbita e intensa, que exige atendimento de urgência. Não tratar não significa necessariamente operar: significa ter um plano, com consultas e exames periódicos.
Quando procurar um especialista
- Cólica menstrual forte que atrapalha a rotina ou não melhora com analgésico comum.
- Dor na relação sexual ou dor pélvica fora da menstruação.
- Cisto no ovário descoberto em ultrassom, com suspeita de endometrioma.
- Dificuldade para engravidar há 12 meses (ou 6 meses, a partir dos 35 anos).
- Dor súbita e muito intensa na pelve — nesse caso, procure atendimento de urgência.
No vídeo abaixo, a Dra. Juliana explica por que a cirurgia do endometrioma pode reduzir a reserva ovariana e quando vale congelar os óvulos antes:
Perguntas frequentes sobre endometrioma
O que é endometrioma?
É um cisto no ovário formado por endometriose. O tecido parecido com o endométrio sangra a cada ciclo dentro do ovário e o sangue acumulado, escuro e espesso, dá origem ao cisto, conhecido como cisto de chocolate.
Qual a diferença entre endometriose e endometrioma?
Endometriose é a doença em que tecido parecido com o endométrio cresce fora do útero. Endometrioma é uma das formas dessa doença: o cisto que se forma dentro do ovário.
Quem tem endometrioma pode engravidar?
Sim. O endometrioma pode dificultar a gravidez por inflamação, aderências e redução da reserva ovariana, mas muitas mulheres engravidam, naturalmente ou com tratamento. A avaliação com especialista em reprodução humana ajuda a escolher o melhor caminho.
Endometrioma é câncer?
Não. É uma lesão benigna. Há um risco discretamente maior de alguns tipos de câncer de ovário em mulheres com endometriose ovariana, mas o risco absoluto é baixo e o acompanhamento com ultrassom é suficiente na maioria dos casos.
Endometrioma desaparece sozinho?
Em geral, não. O tratamento hormonal controla os sintomas e pode frear o crescimento, mas raramente elimina o cisto. Na menopausa, a doença tende a ficar menos ativa.
Qual o tamanho do endometrioma para operar?
Não existe um tamanho único. Cistos acima de 4 a 5 cm costumam ser avaliados com mais atenção, mas a decisão depende dos sintomas, do aspecto no exame, da reserva ovariana e do desejo de engravidar.
A cirurgia de endometrioma afeta a fertilidade?
Pode afetar, porque a retirada do cisto também remove parte do tecido saudável do ovário e pode reduzir a reserva ovariana. Por isso, quem deseja engravidar deve discutir a cirurgia com um especialista em reprodução e, se indicado, congelar óvulos antes.

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