Por que falar de endometriose agora
A dor que paralisa a rotina não é “frescura”. Estima-se que entre 7 e 10 milhões de brasileiras convivam com um quadro muitas vezes silencioso e subdiagnosticado, cuja marca principal é a cólica menstrual intensa, mas que também pode causar dor durante a relação sexual, alterações intestinais e urinárias, fadiga e dificuldade para engravidar. Com o aumento do ritmo de vida, jornadas de trabalho exigentes e o planejamento da maternidade para depois dos 30 anos, entender o que está por trás desses sintomas tornou-se essencial.
Quando identificada cedo e tratada de forma apropriada, a endometriose tem controle eficaz, com redução da dor, prevenção de progressão e proteção da fertilidade. O objetivo deste guia é oferecer um panorama claro, prático e embasado: como reconhecer os sinais, quais exames pedir, quais tratamentos existem — do manejo hormonal à cirurgia — e como planejar a gestação sem abrir mão da qualidade de vida.
Endometriose: o que é, quem afeta e por que acontece
A endometriose é uma doença inflamatória crônica em que tecido semelhante ao que reveste o interior do útero (endométrio) cresce fora dele. Essas “ilhas” podem se implantar nos ovários, trompas, peritônio, ligamentos uterinos, intestino e bexiga, entre outras regiões. Assim como o endométrio uterino, essas lesões respondem aos hormônios do ciclo menstrual, gerando inflamação recorrente, dor e, com o tempo, aderências que colam órgãos entre si.
Embora possa surgir em diferentes faixas etárias, é mais frequente em mulheres entre 30 e 35 anos — fase em que muitas desejam postergar a gravidez por motivos pessoais ou profissionais. Importante: não é uma condição rara nem “invisível”. É comum e merece ser encarada com seriedade, pois atrasos no diagnóstico ampliam o sofrimento e as chances de complicações.
Como a doença se desenvolve
A teoria mais aceita envolve a menstruação retrógrada, quando parte do sangue menstrual flui pelas trompas rumo à pelve, levando células endometriais para fora do útero. Em algumas mulheres, por fatores genéticos e imunológicos, essas células conseguem se fixar, gerar vasos e nervos, e sobreviver. Há também participação de inflamação sistêmica, estrogênio em excesso relativo e alterações na resposta imune.
O resultado é um ciclo de inflamação que se repete mês a mês. As lesões podem sangrar microscopicamente, causar dor e formar cistos (como os endometriomas no ovário) e placas profundas. Não é culpa da paciente, e não se trata de falta de resistência à dor: é uma doença orgânica, com vias biológicas bem estabelecidas.
Fatores de risco e gatilhos do estilo de vida
– História familiar de primeiro grau (mãe ou irmã com diagnóstico)
– Menarca precoce, ciclos curtos e fluxo menstrual intenso
– Malformações que dificultam a saída do fluxo menstrual
– Nuliparidade ou gravidez tardia
– Doenças autoimunes e alergias, que podem coexistir
– Exposição prolongada ao estrogênio ao longo da vida
– Estresse crônico e privação de sono, que não causam a doença, mas pioram inflamação e percepção da dor
Na prática clínica, é frequente observarmos quadros em mulheres com vida agitada, alta carga de trabalho, treino emocional constante e planejamento de gravidez para mais tarde. Esse contexto não cria a doença, mas pode reduzir os intervalos de recuperação do organismo e intensificar sintomas.
Sintomas que não devem ser ignorados
Os sinais variam muito. Algumas mulheres sentem cólicas incapacitantes meses a fio; outras têm dor discreta, mas enfrentam alterações intestinais nas menstruações; e há quem descubra a condição somente ao tentar engravidar. Preste atenção aos padrões: dor que piora com o tempo, resistência a analgésicos comuns e sintomas que “marcam” o período menstrual merecem investigação.
Dor menstrual e dor pélvica crônica
Cólica que impede de estudar, trabalhar ou realizar atividades simples não é normal. A dor pode irradiar para costas e pernas, surgir antes do fluxo e persistir após a menstruação. Muitas relatam dor durante as relações (dispareunia), principalmente na penetração profunda. A sensibilidade pélvica, aquela sensação constante de peso ou pontada, pode permanecer entre os ciclos.
Uma frase útil para lembrar: “Dor que atrapalha sua vida não é normal.” Se você organiza a rotina em torno das cólicas, vale procurar avaliação especializada.
Sinais intestinais e urinários
Quando placas se instalam no intestino ou na bexiga, é comum notar sintomas cíclicos: dor para evacuar, alternância entre constipação e diarreia na menstruação, distensão abdominal, urgência urinária, ardência ou sangue na urina e nas fezes durante o período. A dor ao evacuar (disquesia) e ao urinar (disúria) especialmente no ciclo são pistas valiosas.
Esses quadros podem ser confundidos com “intestino irritável” ou “infecção urinária de repetição”. Se os sintomas pioram no período menstrual, informe isso claramente na consulta — esse detalhe orienta a hipótese diagnóstica correta.
Outros sinais que merecem avaliação
– Fadiga intensa e sensação de “estado gripal” durante o ciclo
– Náuseas, dor lombar e dor pélvica que piora ao sentar-se por longos períodos
– Sangramentos irregulares ou menstruação muito abundante
– Dificuldade para engravidar, especialmente após 6–12 meses de tentativas
Procure ajuda com brevidade se: a dor te faz faltar ao trabalho/estudos com frequência; você usa anti-inflamatórios por vários dias todo mês; nota sangue na urina/fezes no período; ou está tentando engravidar há mais de 12 meses (mais de 6 meses se tiver 35 anos ou mais).
Diagnóstico precoce e preciso
Não existe “exame de sangue” que sozinho confirme a condição. O diagnóstico nasce da combinação de história clínica detalhada, exame físico e exames de imagem feitos por profissionais com experiência específica no assunto. Em muitos países, a jornada até o diagnóstico leva anos; reduzir esse tempo é prioridade, pois possibilita tratamento mais precoce e eficiente.
Exames que costumam fazer diferença
– Ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal: realizada por especialista, identifica endometriomas, aderências e lesões profundas no septo retovaginal, bexiga e alças intestinais.
– Ressonância magnética pélvica: complementa a ultrassonografia e auxilia no mapeamento cirúrgico quando necessário.
– Exames laboratoriais: marcadores como CA-125 podem subir, mas não são específicos e servem apenas como apoio.
– Laparoscopia: já foi considerada o “padrão-ouro” para confirmar por biópsia; hoje, em muitos casos, a combinação clínica-imagem é suficiente para planejar o tratamento. A cirurgia diagnóstica isolada é cada vez menos indicada.
Importante: o grau (estadiamento) nem sempre se correlaciona com a intensidade da dor. Há lesões pequenas que doem muito e placas extensas com sintomas modestos. Por isso, o foco deve ser personalizar a conduta ao seu contexto e objetivos.
Quando buscar avaliação especializada
– Cólica menstrual que não melhora com analgésicos usuais e limita a rotina
– Dor na relação sexual, especialmente profunda
– Sintomas intestinais ou urinários cíclicos, ligados à menstruação
– Infertilidade: tentativas por 12 meses (ou 6 meses se ≥35 anos) sem sucesso
– Histórico familiar de primeiro grau e sintomas compatíveis
Quanto antes a suspeita é levantada, mais cedo você acessa terapias que aliviam dor, evitam progressão e protegem a fertilidade.
Tratamento eficaz: do manejo hormonal à cirurgia
O princípio norteador é reduzir o estímulo hormonal sobre as lesões. Em termos práticos, isso significa interromper ou modular o ciclo para que as placas não “alimentem” a inflamação mensalmente. O melhor plano é aquele que alinha controle da dor, preservação da fertilidade e preferências pessoais.
Terapias hormonais e controle da dor
– Pílula combinada em uso contínuo: diminui sangramento e cólicas; opção versátil para muitas pacientes.
– Progestagênios (como dienogeste) em comprimidos: eficazes para dor e lesões profundas.
– DIU de levonorgestrel ou implante de etonogestrel: práticos e com boa taxa de satisfação.
– Análogos/antagonistas de GnRH com terapia “add-back”: suprimem intensamente o eixo hormonal; indicados por tempo limitado, com reposição para reduzir efeitos colaterais.
– Anti-inflamatórios e analgésicos: usados de forma estratégica (por exemplo, iniciando antes da menstruação) conforme orientação médica.
Nem todas as opções servem para todas as pessoas. Efeitos como alterações de humor, sangramento irregular e sensibilidade mamária podem ocorrer, mas costumam ser manejáveis. Ajustes finos na dose e na via (oral, injetável, intrauterina) fazem diferença.
Estilo de vida e suporte multidisciplinar
A ciência vem reforçando o papel de intervenções não farmacológicas na dor e na qualidade de vida. Elas não substituem o tratamento médico, mas potencializam os resultados.
– Fisioterapia do assoalho pélvico: reduz espasmo muscular, melhora dispareunia e coordenação pélvica.
– Atividade física regular: 150 minutos/semana de exercícios aeróbicos e 2 sessões de força; libera endorfinas e reduz inflamação.
– Alimentação anti-inflamatória: priorize verduras, frutas, leguminosas, peixes, oleaginosas e grãos integrais; reduza ultraprocessados, açúcar, álcool e excesso de gorduras saturadas.
– Sono e manejo do estresse: 7–9 horas/noite; técnicas de respiração, mindfulness e psicoterapia ajudam a modular a dor.
– Terapias complementares: acupuntura e calor local têm evidência moderada para alívio sintomático.
Pequenas mudanças consistentes superam estratégias perfeitas mas irrealistas. Escolha 1–2 hábitos para iniciar já e progrida gradualmente.
Cirurgia conservadora e quando indicar
A abordagem cirúrgica é considerada em casos de dor refratária ao tratamento clínico, comprometimento de órgãos (bexiga, ureter, intestino), obstrução, hidrossalpinge ou quando é necessário facilitar a reprodução assistida. O padrão é a laparoscopia (ou robótica), com remoção cuidadosa das lesões e lise de aderências.
– Endometriomas: a cistectomia (ressecção da cápsula) alivia dor, mas pode reduzir a reserva ovariana. Decidir operar envolve pesar tamanho do cisto, idade, dor e planos reprodutivos.
– Lesões profundas: a ressecção por equipe experiente aumenta controle da dor e qualidade de vida, especialmente quando há sintomas intestinais/urinários.
– Pós-operatório: manter terapia hormonal reduz recidiva. O seguimento é parte do tratamento, não um complemento opcional.
A escolha entre terapias hormonais, cirurgia ou a combinação depende de metas (alívio de dor x gravidez no curto prazo), idade, reserva ovariana e extensão das lesões. Discuta prós e contras com um especialista.
Endometriose e fertilidade: preservar hoje, planejar o amanhã
A doença pode afetar a fertilidade ao inflamar a pelve, distorcer a anatomia, formar aderências e alterar a qualidade dos óvulos. A boa notícia: com diagnóstico precoce e tratamento adequado, aumentam as chances de gestação, seja espontânea, seja com ajuda da medicina reprodutiva. O segredo é planejar de forma proativa.
Impacto na concepção natural
A dificuldade para engravidar pode variar de leve a significativa. Até metade das mulheres com a condição pode enfrentar algum grau de infertilidade, sobretudo quando há comprometimento das trompas, presença de endometriomas volumosos ou doença profunda. Além da anatomia, a inflamação local pode prejudicar a interação óvulo-espermatozoide e a implantação embrionária.
Monitorar a reserva ovariana — por meio do hormônio antimülleriano (AMH) e da contagem de folículos antrais (CFA) — ajuda a calibrar o tempo. Idade e tempo de tentativa são determinantes: após os 35 anos, reduzir a janela de espera e acelerar a estratégia costuma ser prudente.
Estratégias de preservação da fertilidade
Se você planeja postergar a gestação, tem diagnóstico de lesões ovarianas ou considera uma cirurgia, conversar sobre preservação antes é essencial.
– Congelamento de óvulos: idealmente antes dos 35 anos ou antes de procedimentos que possam afetar os ovários; oferece autonomia sobre o tempo reprodutivo.
– Congelamento de embriões: opção para casais com plano de gravidez futura conjunto.
– Planejamento cirúrgico “ovário-sparring”: quando a cirurgia é necessária, técnicas que preservem o tecido saudável reduzem impacto na reserva.
– Acompanhamento semestral da reserva ovariana: ajustes no plano à medida que idade e exames evoluem.
O congelamento de tecido ovariano é experimental em alguns contextos e menos utilizado para esse fim específico; discuta a disponibilidade e adequação com sua equipe.
Caminhos para engravidar com segurança
– Relação programada e janela fértil: em quadros leves, com trompas livres e boa reserva, é possível tentar por um período curto, com manejo rigoroso da dor.
– Inseminação intrauterina (IIU): pode ser indicada em casos selecionados, desde que as trompas estejam pérvias e a idade favoreça.
– Fertilização in vitro (FIV): preferida quando há doença moderada a grave, idade acima de 35 anos, hidrossalpinge, trompas alteradas, endometriomas que dificultem a ovulação/punção, ou quando o tempo é um fator crítico.
– Cirurgia antes da FIV: avaliada caso a caso; é útil para tratar hidrossalpinge e lesões profundas sintomáticas. Já a remoção de endometriomas pequenos e assintomáticos pode ser evitada para preservar a reserva.
Trabalhar em conjunto com um especialista em reprodução humana e um cirurgião com experiência em endometriose aumenta a taxa de sucesso e reduz intervenções desnecessárias.
Plano de ação 30–60–90 dias
30 dias
– Registre um diário de sintomas: intensidade da dor, dias do ciclo, fatores que aliviam/pioram.
– Agende consulta com ginecologista que tenha experiência no tema.
– Solicite ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal em serviço de referência.
– Inicie medidas de dor baseadas em evidência: anti-inflamatório de início precoce no ciclo, calor local, atividade física leve e higiene do sono.
60 dias
– Reavalie resposta ao manejo hormonal, se iniciado; ajuste dose/via conforme sintomas.
– Comece fisioterapia do assoalho pélvico e, se necessário, acompanhamento psicológico.
– Se buscar gestação, faça avaliação da reserva ovariana (AMH/CFA) e oriente o parceiro a realizar espermograma.
– Alinhe expectativas e metas com a equipe: dor sob controle, preservação, gravidez no curto/médio prazo.
90 dias
– Se a dor persistir com impacto na rotina, discuta escalonamento (troca de hormônio, adição de terapia adjuvante ou avaliação cirúrgica).
– Se a prioridade for engravidar, defina a via: tentativa direcionada por mais 3–6 meses, IIU ou FIV, de acordo com idade, exames e tempo de infertilidade.
– Caso haja previsão de cirurgia e você deseje postergar gestação, avalie congelamento de óvulos antes do procedimento.
Ao final desse período, você terá dados objetivos sobre seu padrão de sintomas, exames atualizados e um plano claro — base sólida para decisões assertivas.
Para fechar, lembre-se: você não precisa “aprender a conviver com a dor”. Hoje, dispomos de recursos eficazes para controlar a inflamação, aliviar sintomas e proteger seu projeto de maternidade. Se identificou sinais descritos aqui, procure um ginecologista com experiência em endometriose, leve seu diário de sintomas e suas dúvidas priorizadas. Dar o próximo passo agora é a melhor forma de retomar o controle da sua saúde e da sua fertilidade.
A endometriose é uma doença que afeta cerca de 7 a 10 milhões de mulheres no Brasil. Ela ocorre quando o tecido do endométrio, que reveste o útero, cresce fora dele, causando diversos sintomas como cólica menstrual intensa, dor durante as relações sexuais, alterações intestinais e urinárias. A endometriose é mais comum em mulheres entre 30 e 35 anos, com estilo de vida agitado e que desejam ter filhos mais tarde. O tratamento ideal é a interrupção do ciclo menstrual para evitar o crescimento da doença. Cirurgia é indicada em casos avançados ou quando a endometriose afeta órgãos como bexiga e intestino. A endometriose pode causar infertilidade dependendo do grau da doença, mas com tratamento adequado as chances de engravidar são maiores. O diagnóstico precoce é fundamental para um melhor tratamento.